Contos de Tabuí

23/03/2008 19:56

TARDE DEMAIS PARA VOLTAR ATRÁS

No começo era José Feliciano da Silva. Depois, pela lei do mínimo esforço, pelo pouco caso das pessoas e pelo pouco caso dele pelo pouco caso delas, passou a ser apenas Zé Ficiano. Homem alegre, cheio de lorotas, contador de histórias, chegado numa pinguinha para molhar a goela, um bom pescador. Lutador também. Labutava diariamente na roça, de segunda a sábado, de sol a sol, para ganhar uns minguados trocados que mal davam para cuidar das necessidades dele, da Mariinha e dos briguelos. Gostava dum casquetinho na cabeça e dum pitinho de palha. Fumo de rolo, daquele bazé cheiroso. A casa, feita no terreno do santo, era de pau-a-pique, rebocada e coberta de sapé. Chão barreado com tabatinga. Janelas tapadas com latas de querosene abertas para impedir a entrada da chuva. Porta tinha não. Só uns paus roliços colocados um a um à noite e retirados de manhãzinha. Colchão feito com sacos de moá emendados e recobertos com sacos de açúcar tingidos. Cheios de palha de milho rasgada bem fininha para não ter caroço fazendo calombo na hora de dormir.
Com o tempo alegria do Zé Ficiano começou a diminuir. Cada filho que nascia minguava alegria dele. Proporcional ao aumento da rejeição da vizinhança. Povo começava a deixar pra lá o vizinho. Cada barrigada da Mariinha era mais um anjinho no céu. Só os três primeiros é que sobraram: João, Zeca e Badia. Raquíticos. Banguelas. Barrigas grandes. Sem boniteza nenhuma. Catarrentos e macuquentos. Eram do tempo que o povo ainda ajudava. Outros cinco, quase dois a cada ano, todo mundo deixou morrer. A míngua. Nasciam, não havia quem ajudasse a pobre coitada, e morriam. O Ficiano não podia perder um dia de serviço, senão era um dinheirinho a menos que entrava. Roça tinha mais não. Donos de terra não o queriam como meeiro. Tristeza nele aumentando. Revolta também.
Certo dia, no tempo da seca, com o coração rasgado de dor, depois da morte do último fruto da barrigada da Mariinha, vendo a mulher e os filhos passando fome, Zé Ficiano resolveu reagir. Procurou o João Pataco, outro roceiro dos bons, também esbodegado pela vida, pé rapado outro, assim meio cara de bocoió, mas muito do sabido, daqueles que não dão murro em ponta de faca.
- ô João, num tô mais güentano, sô!...
- O que qui é Izé?
- A vida tá muito dura, João! Assim num tem base não, sô!... Lá in casa num tem o qui cumê. Tá aquela fartura danada. Farta tudo. Pidi num tenho corage... Trabaio nessa casião num tem... Num sei o qui faço...
- Pois é Izé... Tá duro memo.
- Ocê vê, João: ninguém me ajuda, ninguém me liga. Meus fio morre e ninguém nem vem vê. Eu memo é qui tenho qu'interrá... A muié, quando tá na hora de pari, si num tô in casa, tem que fazê tudo numa sozinhês de fazê dó... Assim dá mais não, João!...
- É Izé... Assim tá danado!...
- E tem mais, João. Té hoje num sei pra mode que esse desprezo. O que qu'eu fiz? Só por que sô pobre?...
João Pataco não queria se comprometer. Concordava, mas não opinava. Em cima do barranco. Nisso veio vindo aquela dorzinha de consciência. O homem tava sofrendo muito. Carecia sinceridade.
- É não Izé!... Povo faz muita futrica. Ocê caiu na boca do povo. Fez coisa errada. Povo num perdoa.
- Mas o que qu'eu fiz, diacho?
- Faz muitos'ano qui'ouvi a história. Diz qu'ocê, inhantes de juntá os trapo co'a Mariinha, pra mode de ficá bonito e regateiro pr'ela, andô pegano coisa dos otro... Dissero q'ocê era lalau...
- Ieu?
- O Izé, diverasmente num querdito não. É o povo qui fala, cê sabe, né?...
João Pataco tava de novo tirando o dele da reta.
- Mas coisa de tanto tempo... Do viço da juventude!... Mais de quinze ano...
- Pois é, Izé, povo num esquece. Asvez povo só imagina e joga na bistunta e um disgramado dum fio de Deus quarqué pag'o pato. Dessa vez foi ocê.
Ficiano, se estava triste, mais ficou. Cismado da vida. Não sabia o que fazer, que atitude tomar. Foi para a igrejinha, com aquela fome danada, estômago batendo palminhas, e ficou remoendo sua dor, sentado à porta, olhando pro mundo. De vez em quando escutava, vindo lá do seu rancho, o choro de fome encafuada dos moleques. Nesse dia, já era tarde, só tinham bebido chá de alfavaca. Sem açúcar. Comeram também umas goiabinhas temporonas bichadas do único pé de fruta do seu quintal.
Pensou...Pensou... Várias horas de pensamento. Cabeça até doía de tanto que esquentou os miolos. Levantou decidido e foi direto para venda do Tonho da Bitaca. Homem remediado, meio arenguento, meio unha de fome, filhos crescidos, bem nutridos, bem vestidos e estudando. Lá, decerto, conseguiria alguma ajuda, querendo Deus. Iria pedir. Coisa que nunca tivera coragem de fazer. Deixaria orgulho pra lá. Tinha que dar de comer aos filhos. Ajoelharia e até choraria se preciso fosse. Pediria até pelo amor de Deus. Se esmilingüiria todo para matar a fome dos coitadinhos.
- Bas tarde, sô Tonho!...
- Tarde!
O homem tava com cara de poucos amigos. Aquele cumprimento já deu gastura no coração do Ficiano, maior que a gastura da fome. Mais descabriado ele ficou com a pergunta que veio de supetão daquele homem custoso:
- Que qui'ocê qué Izé?
- Sô Tonho, vim pidi!... Meus fio tá passano fome...
- Tenho gaita não, Izé!
Foi o rebatimento seco do vendeiro. O homem se sentia o rei do mundo. O dono da carniça. Era daqueles que vivem nesta terra pensando que não precisam de ninguém. Mas mesmo assim, depois da desfeita, o Ficiano ainda conseguiu falar:
- Num picisa sê dinheiro, sô Tonho! Pode sê resto de comida... Pode sê um quilo de arroz, um tiquinho de farinha e açuca, só pra remediá. Te pago c'um dia de serviço... Faço quarqué coisa qui o sinhô percisá!...
- Tenho serviço pr'ocê não Izé! E nem comida. Pr'ocê não! Chega os prejuizo qu'ocê me deu. Chega as coisa qu'ocê afanô d'eu.
- Sinhô tá enganado, sô Tonho! Num fiz isso não!...
Falou a última frase com um pedacinho de voz que sobrou. O peito tapado de tristeza. Impotente ante a pobreza e a incompreensão.
- Fez sim! Teve gente qui me contô! Gente de confiança...O povo fala muito, mas povo num inventa... cê sabe...
- Sô Tonho, pelo amô de Deus!...
- Num põe Deus no meio Izé! Falei, tá falado! Inté!
Zé Ficiano saiu cabisbaixo, com os olhos merejando água. Nem conseguia ver onde pisava, até que a água dos olhos virou correnteza. Voltou pra porta da igrejinha. Chorou. Chorou muito. Amargamente. Sozinho, pra ninguém ver. Porque homem que é homem não chora. Tão grande a incompreensão das pessoas. Lembrou de rezar. Rezou um tiquinho para o Deus dos justos. Garrou com a santaiada toda. Até que veio a inspiração. Já tava escuro, um breu danado, quando saiu direto para o quintal do vendeiro, tendo o cuidado de dar uma boa volta, para não ser visto. Sabia direitinho onde, bem no fundo do quintal, tinha um bigue dum cacho de banana marruquinha sendo devorado aos poucos pela passarada. Cortou o cacho com o canivetinho de picar fumo, bem devagarinho para não fazer barulho. Podia despertar a cachorrada dos ricos.
- Robá pra matá a fome dos fio num é robo. Justificava-se ele.
Naquela noite meninada dormiu de pança cheia. Comeram banana até o cu fazer bico. O pobre homem teve o cuidado de guardar bem escondido, nas grimpas do rancho, perto da cumunheira, um meio cacho com aquelas frutas que não estavam ainda bem maduras. De vez. Tinha que ser prevenido.
No outro dia, bem cedinho, tomou uma alfavaca fervida e saiu procurando serviço pelas fazendas e sítios das redondezas. Não aqui. Não ali. Não acolá. Era não pra tudo quanto é banda. Ninguém tinha trabalho. Para ele. Conseguiu uns trocados com a velha Cota, depois de rachar meio carro de lenha e queimar uns restos de coivara no roçado. Só que aquele dinheirinho dava pra nada. Quando muito um quilo de farinha. Filhos teriam que se contentar com o resto das bananas.
Foi voltando pra casa, meio ressabiado e pensando. Estava numa sinuca danada. Não tinha como resolver o problema. Se pelo menos tivesse trabalho... Torcia por qualquer outra infelicidade, menos a falta do que comer. Passava fome com os filhos em meio a tanta fartura pra muita gente. Enquanto muitos estavam no bem-bom, ele matava cachorro a grito. Dor maior não há para um pai que ver os filhos chorando esfomeados e sem poder fazer nada. Resolveu, pra esquecer das mágoas e criar coragem, passar na bitaca e mandar uma lapada de cachaça bucho a dentro. Pelo menos para isso os trocados recebidos da velha Cota dariam.
Logo, logo aquela água que passarinho não bebe fez efeito. Estômago fraco mandou os gases pro cérebro que os recolheu todos, enchendo o homem de coragem e desinibição. Chegou a fazer discurso, aprontando uma fuafa com os companheiros de copo. Desdém duns, incentivo doutros e risos zombeteiros dos menos chegados. Potoca quiçó.
- Homes! Tô cansado de levá manta na vida. Virei carcaça véia, sem sustança... Num quero mais ficá de déu in déu cos meus muleque. Tô com azá dimais da conta. O mundo num liga pr'eu. Ninguém me dá uma demão. Ocêis tamém num liga pr'eu. E quando um home num tem amigo, num tem mais nada. Antes sesse qui'eu tivesse tantão de amigo! Quem dera qui'assim sesse!... Ma ninguém qué meu oferecimento d'amizade... Um home sozinho num pode ficá... Ma nenhum fio de Deus dá uma chancha pr'eu!...
- Quá home! Dexa de bobage! Dexa de disagero! - Gritou um mais ajuizado.
- Vai pintiá macaco, Ficiano! Vai caçá serviço! - Zombou outro.
- Cala a boca, Ficiano coió! - Berrou um trêbado dando um baita cutucão no coitado.
- Cala a boca já morreu! Quem manda ni mim sô eu! E qué sabê duma coisa? Vai tomá no fióis! - Replicou o Zé Ficiano, arretado, fulo da vida. Tonto, mas ainda pensante. Encrespado com a malquerência, como ninguém respondia, continuou:
- Pois é, cambada de cachorrama disgramada! Ocêis num intende o sofrimento dum home que vê os fio passá fome. Só qué caçuá d'eu! Cêis num sabe qui tô aqui com fome!...
- Aí Izé! Tá com fome? Mata um home e come! Si fô poco mata um porco. Si fô muito divede c'um difunto! - Gritou ligeirinho o trêbado conseguindo lembrar dum ditame popular.
O Ficiano tava se sentindo num mato sem cachorro. Naquela situação de se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Tava virando fuá. Godó purinho. Não podia parar agora. Mesmo com o engasgo parado na garganta, tinha de dizer o seu sentimento. Coragem tinha agora. Assim meio chorando, meio soluçando e ainda alteado, foi soltando as palavras aos borbotões:
- Vancêis é sem coração. Me fizero um istrupiço na vida. Num fiz istripulia nenhuma! Me disprezaro sem eu sabê porquê. Virei farrapo. Fudido. Num mi dão terra, num me dão trabaio pra mode qu'eu errei na mocidade. Cambada de fedazunha dos quinto! Ocêis num sabe qui o home pode errá? Rependi de tudo tantão de vez. Q'adiantô? Virei bode respiratório de todo mundo. Assim num vai mais pudecê. Da vida o q'a gente leva é o que come e o qui ama. Eu levo nada disso porquê só cumi o pão qui'o diabo amassô. Mais quem eu amo vô levá comigo memo. Chega de sofrê! Mas vô dexá uma lembrança na cabeça d'ocêis: o remorso. Durante tempão danado niqui'ocêis lembrá d'eu vai tê remorso! E nunca mais vai tê jeito de vortá atrás... Põe sentido!... Põe sentido!...
O homem terminou as últimas palavras num pranto só. Precisou dum companheiro quase carregá-lo pra fora da bitaca.
- Va'imbora Izé! Dexa de copiá moda! Carece ingrizia não! Cê tá bebo! Vai dormi, vai!
O Ficiano saiu meio cambaleando. Deixou em todos uma sensação estranha de que não o veriam mais. Decerto iria embora da terra pra nunca mais. Prum cafundó do Judas qualquer. Ia isalar na noite levando filharada, mulher e muquiça.
Chegou em casa muito lentamente, quase parando, apenas empurrado por um pensamento estranho. Molecada esperando alguma coisa com aqueles olhos famintos. Pidões. Mariinha também. Zé Ficiano, ainda bastante chumbado, pegou o cacho amoitado com o resto das bananas e descascou todas. Pegou também uma latinha fedorenta que estava bem escondidinha debaixo da tuia vazia. Os moleques e a Mariinha comeram até a última banana sofregamente. Muito embora estivessem todas com um gosto meio diferente. O pobre homem nem quis comer. Não precisaria mais. Apenas bebeu as últimas gotas do que sobrou da latinha. Formicida. A partir daquela noite todos dormiram o sono tranqüilo dos justos. E na cabeça confusa de todo mundo das redondezas uma coisa ficou gravada: o remorso. Tarde demais para voltar atrás.

enviada por Eurico de Andrade






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